23 de mar de 2013

a menina com o bolo de glacê de uva

Dispôs sobre o balcão da cozinha, ordenadamente, três potinhos verdes e três potinhos cor-de-rosa. Depois, trocou a ordem deles, alternando as cores. Uma daquelas coisas dela, que os outros chamavam de chatice. Ou transtorno obsessivo compulsivo.

Pegou o caderninho de receitas e ajeitou metodicamente a quantidade certa de ingredientes em cada um dos recipientes. A farinha deixou a blusa cinza dela coberta de pontinhos brancos. Ao quebrar os dois ovos necessários, ela fez uma caretinha de satisfação. Não conseguiu evitar: colocou na língua uma pitada de açúcar e fechou os olhos para levar para o corpo inteiro a incrível sensação de doçura.

Um a um, os ingredientes foram despejados na bacia da batedeira. O barulho encheu a casa inteira, e ela cantava enquanto tudo se misturava e abraçava, formando uma linda e lisa massa homogênea. Desligou a batedeira com um sopapo no botão. Passou o dedo na massa geladinha e experimentou. Um hmmmm satisfeito foi o resultado.

Na forma untada tudo foi despejado. E quando tudo estava no forno quentinho, ela não resistiu. Sentou no chão, com as pernas cruzadas, e se divertiu lambuzando o dedo na massa que havia sobrado. Sujou os lábios e a bochecha nessa doce ação, mas nem se deu conta.

O cheiro invadiu a cozinha e foi além. Quem passava na frente daquele apartamento se sentia instantaneamente feliz e apaixonado, sem nem mesmo saber por quê. Há boatos de que aquele dia contou com o mais baixo número de acidentes e brigas registrado nos últimos 10 anos.

Enquanto o bolo esfriava na janela, ela cantava uma canção das princesas Disney e batia vigorosamente um glacê. Gotinhas de aroma e sabor transformaram a leve mistura em algo deliciosamente roxo e com gosto de uva.

Quando tudo estava pronto, ela cortou pedaços grandes, quadrados, e embalou carinhosamente cada um deles em um pedaço de pano xadrez. Amarrou com um laço de fita e, em cada pacote, colocou um recado que dizia “Que seja doce. Como sua vida”. Saiu pela cidade e largou cada pacotinho na soleira de uma casa diferente. Tocava a campainha e saía rápido, como fazia quando era criança e brincava com o irmão.

Voltou pra casa satisfeita. A magia da cozinha está nos detalhes, nos cheiros, nos sabores. Cozinhar é relaxante, é apaixonante, faz a gente de aproximar dos outros. Basta saber ver.

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Esse post faz parte do Desafio Relâmpago, projeto que começou lá na minha página no Facebook. A tarefa é escrever um post com o primeiro título sugerido. Essa ideia aqui veio da querida Beatriz Roedel. Fica de olho na minha página, a qualquer momento posso lançar o desafio de novo! 

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