Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

9 de jul. de 2016

Pudim

Às vezes ela acorda com vontade de se esconder dentro do bolso daquela saia vermelha comprada no brechó. Pequena, com medo, sem conseguir ver a luz lá no fundo do túnel – que tanto dizem que existe. Ficar andando no breu à procura de uma ínfima réstia de luminosidade parece tão exaustivo, ainda mais para ela que nunca havia gostado de escuridão. 

Outras vezes ela acorda com um sorriso que fica tal e qual um pedaço grande e gelado de melancia. O formato. Até o sabor, quem sabe, se formos pensar naqueles chicletes de fruta que ela tanto gosta. O coração bate acelerado e com vontade de viver tudo ao mesmo tempo agora. É nesses dias que ela acredita que a vida é uma folha em branco, toda pronta para ser colorida com canetinhas de glitter. 

Ela sabe, porém, que esses começos de dia variam. Às vezes um gole de café mais amargo que o habitual já leva embora o doce frescor da vontade. Uma palavra dita na hora que não era esperada, uma crítica que aparece sem nenhuma sugestão para transformar as coisas em algo melhor.

Daquelas coisas que não saem da cabeça. Será que pra todo mundo é assim? Uma gangorra de emoções tão conflitantes? Os dias bons levam embora o nublado dos ruins. Mas quando esses chegam, há um temporal. A precipitação de água vem na forma de gotas salgadas que descem pelo seu rosto. Nunca foi comprovado que chorar sozinho no quarto resolvesse alguma coisa, mas parece que limpa um pouco o doído do coração. 

Uma amiga dela disse, certa vez, uma frase que nunca foi esquecida. Hoje ela parece fazer mais sentido do que nunca. 

- Quer moleza? Senta no pudim.

27 de jan. de 2015

Aquela carinha piscando


Depois de muito tempo, criei coragem para mandar pra você aquilo que eu estava pensando sobre a gente. Mas resolvi mandar assim, como forma de brincadeira. Bem dizem que toda brincadeira tem um fundo de verdade, eu sei como é. Fica aquela coisa de “ela quis dizer o que eu acho que ela quis dizer?”, uma sensação boa, uma cosquinha com sabor de promessa. Então eu escrevi, li e reli 10 vezes. Apaguei, tornei a escrever de outra forma, apaguei mais uma vez e tornei a escrever a primeira opção. Li e reli umas 10 vezes. E enviei.

Você recebeu. Você visualizou. E você me respondeu com um “hahaha”.
Um hahaha.

Uma combinação de duas letras que pode se transformar em um verdadeiro balde de água fria, especialmente quando não era exatamente o esperado. Uma combinação de duas letras que pode significar que você me leu, me entendeu e não compartilha do mesmo sentimento, mas mandou uma resposta querida por simples cortesia. Uma combinação de duas letras que também, é claro, pode significar que você tem um pensamento um pouco atrasado (olha eu, sempre tentando defender você), sobretudo com relação a indiretas.

Peguei o hahaha pelo pescoço, considerando amarrar a boca, amaldiçoar, picar em pedacinhos e jogar para os cães. Mas engoli, como boa menina, como aprendi cedo a fazer. E mandei de resposta aquela carinha piscando.

Aquela que é um ; e um ), sabe? Assim: ;)

Aquela carinha piscando que traz em si um traço de ironia fina. Que representa milhares de palavras com apenas dois caracteres. Que automaticamente desconsidera tudo o que foi escrito na frase anterior a ela.

Não to braba não ;)

Ela arrasa sempre ;)

Beleza, vai lá com seus amigos ;)

A carinha piscando é a melhor substituta para comentários ácidos, para dar a uma pessoa a resposta que ela merece – ser perder um tiquinho da finesse. É o oposto do coraçãozinho, da carinha sorrindo abertamente, daquela que traz uma linguinha pra fora.

Aquela carinha piscando é a ovelha negra no mundo dos emojis politicamente corretos. É bipolar, subversiva, louca e potencialmente perigosa. É aquela que não deve ser nomeada, apenas invocada em casos de extrema necessidade.

Então eu mandei aquela carinha piscando, mas de verdade só queria mandar você tomar no cu.


19 de fev. de 2013

enquanto estiver bom




O que a gente praticava era um jogo de desinteresses. Você, passarinha da asa quebrada. Eu, uma máscara de macho dominador, tendo escondido um cordeirinho sentimental por baixo. Você queria proteção e alguém para escutar os seus devaneios. Eu queria saber o que estava querendo. Embora juntos, não sabíamos para onde estava indo. E enquanto o percurso seguia sem nenhum obstáculo determinante, continuávamos traçando nossas linhas tortas. Não era nenhum enigma porque não existia nenhuma razão de ser. 

No fundo eu sabia que você iria pular fora a qualquer momento. Mas passou uma semana, duas. Um mês. E mais. Hoje estamos beirando um tempo que no início sequer parecia existir. Me olho no espelho e ainda vejo o mesmo cara de sempre. O mesmo nariz, a barba por fazer – com aqueles pelinhos inflamados que você insiste em apertar. Só que, sei lá. No fundo talvez alguma coisa tenha mudado. 

Onde isso vai dar eu não sei. Mas sigo enquanto estiver bom.

8 de dez. de 2012

da venda que saiu dos olhos

- Não sei o que me deu nesses últimos meses. Nesse ano, em grande parte. Parece que eu vivi com uma venda nos olhos. Tá me ouvindo? Uma venda que me impediu de ver muita coisa. Fiquei alienado. É, alienado. Vivendo naquele mundinho da minha cabeça, que acreditava que todo mundo era bom demais, só querendo simpatia e elegância. Só que a venda desamarrou, sabe? Essas coisas sempre acontecem. As máscaras caem, o gelo derrete e deixa aquelas gotas nojentas do lado do lado de fora do copo.
- As gotas não são nojentas. É um fenômeno que acontece. Assim como são as coisas, também são as pessoas. O mundo não é um arco-íris, cara. E tu demorou pra ver isso, hein?
- É. Dormi no ponto. Acreditei nelas. Nas pessoas, eu digo. E agora vi como existe mesquinharia, falsidade, ciúme. E ciúme de tanta coisa... Tanta coisa boba! E as pessoas fingem. Viver uma realidade fingida é viver uma vida plena? O que acontece quando os que fingem estão sozinhos? Continuam fingindo ou vivem o vazio? Ou continuam postando as fotos e querendo continuar a farsa? Gente ruim que finge ser do bem. Gente que faz coisas tão baixas que não dá pra acreditar. Gente que é pobre de tudo - e não tô falando de dinheiro. Saca? Essas coisas me deixam puto.
- Mas é assim que elas são.
- Não me venha com conformismos. Eu não vou ser assim. Eu não SOU assim. Eu não quero aceitar isso. Fingir. Não ser. Não estar. Aquelas realidades inventadas que não representam aquilo que o poetinha dizia.
- Então basta não se associar aos que fingem. Aos que não são.
- É. Mais um daqueles itens para o ano que vem. Há de ser O ano. Criar laços e desatar nós. Porque os nós apertam, enquanto os laços enfeitam. E jogar fora todas as vendas.

23 de jul. de 2012

o começo de alguma coisa

Anna puxou as mangas para cima e secou uma lágrima que escorria pela bochecha. Ela vertia não em função de uma tristeza momentânea, e sim devido a uma cebola especialmente grande que estava sendo descascada. Com uma curiosa sensação de prazer, Anna colocou a cebola sobre a pia e cortou-a ao meio em uma facada só. Pedaços pequenos foram picados e, então, jogados na frigideira quente. Em seguida, tomates gordos foram fazer companhia para as cebolas que chiavam. Da geladeira veio uma garrafa de vinho. Anna encheu uma taça e tomou metade dela em um gole só. A outra metade foi jorrada para a mistura vermelha, que começava a se tornar um molho.

O aroma na cozinha se tornava cada vez mais interessante. Senhor Minkos, o gato, veio da sala fingindo desinteresse, mas dando olhadas furtivas para cima do fogão. Anna enxotou ele com o pé, enquanto enchia outra panela com água e colocava sob o fogo. Deu uma mexida na panela dos tomates e experimentou um pouco. Colocou uma pitada de sal e experimentou de novo. Ótimo.

Jogou uma porção de espaguete na água que fervia e pegou no armário sua louça mais bonita. Colocou na mesa um prato, um garfo e uma faca. Escorreu a massa, jogou o molho por cima. Sentou à mesa com a taça de vinho e começou a comer. Nada mal para uma noite de segunda-feira, pensou, satisfeita.

3 de nov. de 2011

20 dias 20 posts – 16: realidades inventadas

Eu e minha amiga caminhando ontem, no final da tarde. O papo rolava fácil, até que eu comecei:

- Amiga, tem algumas coisas com as quais tu simplesmente não deve se estressar muito, sabe? Porque o que vai, volta! Se alguma pessoa foi ruim contigo, ela ainda vai tomar no cu, é bem simples! É tipo um ciclo se fechando.

- Eu sei, eu sei disso!

- Que bom que tu sabe. Então pensa comigo. Algum desses caras que foi idiota contigo, daqui há muito tempo, vai ter uns 70 anos. Vai ser Dia dos Namorados e o neto adolescente dele vai estar apaixonado por alguma mina e sem ter certeza de qual presente comprar. Daí o avô dele vai dizer ‘ahhh, rapaz. Quando eu tinha um pouco mais do que a sua idade, eu deixei escapar a mulher da minha vida. Ela era linda, de família, inteligente. E eu simplesmente não quis ela!’!

- É, panaca, deixou escapar mesmo. E daí eles vão me procurar no Face e veem que eu tô feliz, né?

- Isso! O neto vai dizer ‘mas vovô, nunca é tarde para reencontrar o amor da sua vida! Tu te lembra do nome dele? Podemos encontrar ela em alguma rede social!’. Daí eles vão te catar em algum Facebook e vão encontrar. Só que vai ter uma foto tua com teu marido médico, já aposentado, segurando as passagens da próxima viagem que vocês vão fazer pra Roma.

- E vários álbuns com nossas últimas viagens e nossa família enorme e feliz! E ele vai ficar pensando ‘por que eu não fiquei com ela?’.

- Meu, eu tô contando a história. E tu merece coisa melhor que ele.

- Tá bom, Nicole.

- Enfim. Daí no outro dia o cara vai estar sozinho na fila do supermercado, esperando pra pagar por uma bandeja de iogurte de ameixa. Daí do nada tu vai aparecer. Tu vai estar com um neto no carrinho e comprando um monte de coisa que crianças gostam de comer. Tipo Bisnaguinha. E, sei lá, pastel. Daí a criança vai estar rindo, porque tu vai estar fazendo cosquinha nela. Daí tu paga tuas compras, vai pra tua caminhonete e vai embora. E o cara fica te olhando.

- Mas ele não tem a esposa dele?

- Tinha! Ela usou o dinheiro dele pra fazer um monte de plásticas e depois trocou ele por um cara 30 anos mais novo, que só tá com ela por causa do dinheiro. Mas não aquelas plásticas que ficam bonitas. Ela se espichou toda, e tá com um bronzeado laranja. E largou ele só com uma casa e um carrinho que faz barulho na surdina.

- Que bom! Ah, amiga, que coisa boa, né? Bem que podia ser assim...

- Vai que, né? Delícia mesmo é fazer essas realidades inventadas.

E a conversa continuou, e a gente seguiu caminhando em direção ao sol que já ia sumindo.

--------------------------

- Pai, o que tu acha de eu escrever ficção?

- Acho que tu ia te sair bem, gafanhoto.

- Por que tu tá me chamando de gafanhoto? Oo

- Pra não te chamar de Luke ou Obi-Wan Kenobi.

- Tá, mas por que personagens de Star Wars?

- Porque eles são de ficção.

-Ah, tá.